Conto da Semana

20 07 2009

Recife, 17 de julho de 2009.

“Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem.”

(Bertold Brecht)

Elas também são culpadas?

Por Guilherme Patriota

Primeiro colocou algumas pás de terra, depois deu um tratamento ideal que pudesse gerar mais relações orgânicas o quanto possível a mesma, alimentando o que ainda não foi vingado ou fincado. Posteriormente colocou a mistura em vaso seguro, de barro, preenchendo todo o espaço vazio. Na seqüência fez um furo no centro da circunferência com o dedo polegar, jogando três pequenas sementes redondas no buraco, recobrindo-o com a terra anteriormente retirada. Vinte minutos depois, ao amanhecer do dia, levou o vaso para a área de serviço do pequeno apartamento, observando que lá o sol apareceria por mais tempo, iluminando a vida que estava por nascer. As oito, treze e dezenove horas, aguava o vaso, tentando ao máximo não machucar a terra, não mexer na bolsa que gerava uma vida. Sete dias depois foi registrado o nascimento de sua primeira filha, um pequeno talo verde com três folhinhas bicudas na ponta. Seu amor era exalado diariamente para sua cria, alimentando-a, observando-a, embriagando-a de positividade, de fascinação, de busca por compreensão, de descobrimento. Vinte e um dias depois a plantinha já era majestosa, cheia de folhas verdes escuras e cercada de outros seres, insetos, que também apaixonados já alimentavam e eram alimentados pela força daquela nova vida. Aos trinta e cinco dias os olhos abriam-se, mostrando pequenos cristais que variavam do branco ao marrom, e que cresciam e cresciam a cada dia, buscando demonstrar sua imponência e instinto de sobrevivência.  O crescimento era visível, mesmo para ele que não saia de perto da filha desde que ela nascera; e a vida se renovava, renascia, revivia o que ele precisava que revivesse: A esperança de ver uma vida novamente nascer. Aos sessenta dias, a formosura daquela filha encantava seu pai, de criação/observação/reação, com lindas folhas, belos olhos, enormes cristais e fungos brancos que destoavam do variavelmente equilibrado verde do passar os olhos pelas folhas até seus frutos. O sem nome (SN) percebia que a vida imita a própria vida, que as coisas se geravam, regeneravam, se distribuíam. Aos setenta e cinco dias, ele não podia mais chamar a verdinha de filhota, pois seus descendentes já se espalhavam por toda a área circular, nas alturas de seu um metro e trinta e cinco de comprimento, e vários pretendentes a hospedeiro já circulavam suas redondezas, manifestando que a solidão é um simples estado ideal de um inexistente. Aos noventa dias, verdinha continha um poder de manifestação olfativa impressionante, que atraia qualquer espécie animal que por perto passasse, gerando, por conseguinte, diálogos a mais na análise do SN. A planta crescia, abria seus braços para uma extensão cada vez maior, cegando seus olhos, amadurecendo seus cristais, manifestando a abertura de uma nova percepção de tempo e espaço. SN, de olho viciado na observação, transferira até sua cozinha para dentro da área de serviço, com o intuito não perder nenhum momento daquela vida que nascera e tão logo iria morrer para renascer. Aos cem dias, SN resolveu, resistente, dar o penúltimo passo em direção ao inevitável; resolveu colher, secar e provar a transferência dos valores daquele vegetal para seu reino animal. Cortou todos os frutos, folhas e talos; pôs no sol quente por meia hora; espalhou-os sobre uma palha seca de milho; enrolou a palha sobre o vegetal e amarrou, com dois nós, com outro pedaço da mesma palha cortado em tiras. Finalizado o processo, SN deitou-se na rede, pegou um isqueiro nunca antes usado, pôs o composto vegetal na boca e acendeu a outra ponta. SN, embriagado por concluir a sua observação, esqueceu que sua rede ficava na varanda; que seus vizinhos praticamente dividiam aquele espaço com ele e que o gosto por plantas que faziam fumaça não era nada desejado por qualquer um na redondeza. Cinco puxadas e soltadas de fumaça depois, a vizinhança, que não sabia da existência da filha do SN – não sabiam sequer seu nome -, já fazia balburdias e alarmes por toda parte, afirmando que tinha um maconheiro no prédio. Cem dias e treze horas depois do nascimento, a plantinha era cortada por uma dupla de policiais militares, que prenderam SN por porte ilegal de entorpecentes e por provável tráfico de drogas. O Sem Nome, ainda extasiado com sua primeira relação psicológica com uma planta, em depoimento a polícia, declarou: “Perdi minha primeira filha assassinada. Dizem que foi vítima do tráfico de drogas, da maconha. Passei dois anos tentando entender este fato, me recuperar da situação, perceber como uma plantinha tão singela poderia gerar tamanha tragédia. Passados os dois anos, resolvi compreender melhor do que se tratava, que planta mágica era essa que tinha o poder de fazer um humano morrer. Comprei a terra, cultivei, plantei e vi crescer aquela plantinha que todos afirmavam ter matado minha filhinha. Em minha observação percebi como a vida é generosa e como os pensamentos de transferência de responsabilidades dos homens são perigosos. Ao ver nascer aquela planta, vi minha filha renascer, não morrer; compreendi que o mundo tem ciclos e que os homens teimam em subvertê-los. Verdinha não me fez mal nem quando a fumei, no entanto nosso instinto de poder reverbera soluções mais viáveis para as contrariedades das situações, tornando-nos vítimas de nossas próprias decisões. No final das contas eu que também vos pergunto: será que as plantas são as responsáveis pelas fatalidades humanas, ou nossas fatalidades também recaem sobre as plantas para livrar-nos de todo mal e amém? Quem tiver esta resposta de forma concreta, também possui o direito de me condenar por todos os crimes da humanidade. Salvem as plantas, sem preconceitos ao menos com elas, pois em nossas leis cristalizadas, elas também são culpadas.”

Guilherme I. F. Patriota.

Joaseiro.com

Anúncios




Conto da Semana

12 07 2009

Recife, 03 de julho de 2009.

“O excesso de luz cega a vista.

O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demasia estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isto, o sábio em sua alma

Determina a medida para cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o invisível.”

(Lao-Tse)

A Horta Comunitária dos Sonhadores

Por Guilherme Patriota

Talvez a leitura seja uma das coisas mais importantes para a cultura programada do ser humano, mas em casos mais raros o degustar do vício se torna uma doutrina quase que incorrigível de repetições e mais repetições do que não foi vivenciado, e assim foi com a vida de PR. Ele acordava cedo para ler Proust ou Joyce, pois ao meio-dia tinha que iniciar suas leituras de poesias ultra-românticas, visualizando o estudo filosófico do início da tarde e as leituras científicas do final, para que no começo da noite pudesse sair para encontrar os colegas e logo voltar para casa e tentar compreender textos biográficos que versavam sobre o homem em estado artístico. PR, aos quarenta anos, já havia lido mais de três mil livros, mil trezentos e cinqüenta notoriamente identificados nas primeiras páginas de uma agenda que ele sempre carregava em baixo do braço, no entanto estes dados e seu PHD na escola de estudos culturais da Inglaterra não solucionaram o sentido de compreensão de sua própria vida. No pouco tempo que tinha com colegas, não amigos, pois PR não tinha paciência de ouvir aqueles conhecidos de infância que falavam sobre trabalho, dificuldades do lar, do dia-a-dia, ele apenas condicionava a conversa dos rapazes e moças, de sua velha cidade, a análises, sempre aplicando dizeres de algum de seus tantos ídolos literários como forma de convencimento e sabedoria superior sobre a vida dos outros. PR morava com os avós, pois seus pais, quando ele completou vinte e oito anos, transferiram todas as responsabilidades convencionais e financeiras da vida de um cidadão para as mãos do jovem leitor, e PR não teve saída mais simples do que ir morar com os avós que tanto o amavam – ele era o único neto do casal quase centenário. A aristocrática família de PR nunca permitiu que ele mexesse uma palha sequer quanto às resoluções práticas do cotidiano. Ele não lavava, não passava, não cozinhava, não trabalhava, não pagava, não participava, não recondicionava; apenas lia. Quando os pais promoveram PR ao que os escritores capitalistas chamam de liberdade, ele sentiu que a perdeu, e, pior, percebeu que poderia perder sua leitura, seu único ente incondicionalmente querido. Morando com seus avós na velha e mesma cidade de sua infância, PR intensificou monstruosamente seu índice de leitura e transformou sua vida em um campo literário daqueles que só as palavras escritas é que têm valor. Todos desacreditavam PR naquela pequena localidade, pois lá a moral de um homem que vive de sonhos sempre foi descartada, impregnando-se todos os horizontes com aqueles dizeres de que “o trabalho engrandece o homem”. PR não ouvia, pois a paciência lhe faltava e, ao mesmo tempo, era totalmente preenchida pelos próprios livros, que o envolviam, que o cativavam a devanear e devanear em sua singular realidade. No aniversário de cem anos de seus avós, quem recebeu o presente foi PR, tudo bem que não era o mais desejado, pois o casal de idosos havia viajado sem rumo pelo mundo deixando uma carta de liberação para o neto, afirmando que agora sua vida estava por sua própria guia, por seu próprio intuito. PR, não tão perturbado como da primeira vez que foi “libertado”, pelos seus pais, juntou seus melhores livros e partiu para a rua. A cidade inteira já tinha noção de tudo, e deixaram PR por duas noites se virar com pequenas porções de alimento doadas pelos, agora, colegas de convivência – os sujeitos das ruas. A vitalidade e a disciplina de PR surpreendiam a todos, dado que não perdera nenhum dos seus hábitos de leitura no quando do habitar a praça. O sentido de [in]desejo dos habitantes daquela cidadezinha, não permitia que PR pudesse sobreviver daquela forma, ativando um inconsciente/consciente coletivo de não ajudar ao ex-aristocrata leitor que se recusava a render-se aos moldes de vida dos cegos do social. O tempo passou e PR continuava feliz, lendo, lendo, lendo, e agora cercado de amigos “ignorantes” que adorava ouvir. Para PR, ao contrário dos colegas de outrora, os mendigos falavam por uma verdade própria que estava “para além do bem e do mal” de sua também verdade, referendando que os sonhos, muitas vezes, e para alguns e outros de formas diferentes, podem ser pequenos traços de montagem para um quebra-cabeças chamado realidade. PR e seus amigos foram e ficaram isolados de sua sociedade, adotando o canteiro central da praça ao fundo do cemitério, com a autorização de sabe-se lá quem, de boa fé, na prefeitura, como “horta comunitária dos sonhadores”, que produzia o essencial a sobrevivência alimentar dos mesmos e servia como biblioteca pública a céu aberto daquele município. Em três anos PR ensinou todos os mendigos da cidade a ler e escrever, cativando um drink diário de sonhos para todos aqueles que não tinham o direito de sonhar. A “horta comunitária dos sonhadores” ganhou outros campos quando um crítico literário bisbilhoteiro a descobriu, pelas palavras de sua fonte “como um ato louco de um aristocrata exótico que quer aparecer”. Publicada a primeira notícia no jornal, relatando a nova comunidade intelectual formada no interior do país por mendigos leitores, todos os veículos de comunicação internacionais queriam conhecer e entrevistar o suposto líder daquela irmandade. PR recusou, pois afirmava não existir irmandade alguma, apenas a resolução de algo que naturalmente teria que se resolver. Mesmo não sendo o desejo de todos, a horta tornou-se ponto turístico daquela cidade, e a não irmandade teve que identificar seu território, agora novamente compartilhado pela população, com uma placa escrita a mão por PR: “A Horta Comunitária dos Sonhadores – Decidi ensinar quando parei de ler. Ao parar de ler descobri que nos homens os vícios sempre irão existir, e somos obrigados a passar alguns destes corriqueiros para nossos iguais, cativando a continuidade das ações quando estas geram sonhos. Passei quase meio século me dedicando a algo que imaginava ser meu, até descobrir que o que era realmente próprio estava resguardado. De tanto sonhar, devaneando por o que não era, acabei encontrando um real caminho, acreditando em mim mesmo, e agora nos outros que também são meus.”

Joaseiro.com





Uma nova visão para a humanidade

28 06 2009
Recife, 26 de junho de 2009
“Para o homem que possui o conhecimento, não existe dever… E, para dizer ainda como conclusão o que dizia ao começar: o homem prefere ainda querer o nada antes que nada querer.”
(Nietzsche)

Buscando, de forma lúdica e brusca, uma nova visão para a humanidade

Por Guilherme Patriota

     No mundo da banalidade, MJ apenas sobrevivia. Ele tornara-se, desde criança, o maior pensador de seu tempo, e havia vendido cem milhões de cópias de seus livros quando adulto. Sua personalidade absurda era destaque em tudo, pois conseguia refletir para si os fatos, as vivências e as preponderações de seu tempo sem se perder na história da humanidade. MJ havia se isolado desde os vinte e cinco anos de idade, pois sua forma de pensar já não era o mais importante, dado que a mídia, como que buscando copiar suas formas de agir para gerar outros seres iguais, procurava descrever cada ato de sua vida conturbada, invadindo os limites de convivência particular e atirando as facetas humanas de um, aparente, não humano nas capas de todas as revistas, jornais, blogs e programas televisivos de todo o mundo, no cativar de uma ganância exploratória de geração capital a procura do inevitável banal. MJ, em todos os seus escritos, afirmava que a coletividade individualizada e sadiamente natural tornar-se-ia o fator de modificação de sua sociedade, porém no seu convívio isto se tornara impotente, pois seu isolamento, por sua genialidade banalizada, fazia dele um ser apenas individual, isolado, caricaturado como o deus que pensa e que deve ser seguido. MJ tentava, em vão, se aproximar dos outros, mas sempre era idolatrado, tratado de forma diferente, como algo inalcançável, deverasmente afastado da coletividade humana. Ele resolveu partir sem rumo, porém sua fama avançara por todo o globo e não tinha mais como se isolar em um pequeno grupo de respeito mútuo.  MJ parara de escrever, sua busca limitava-se ao encontrar alguma comunidade que o distinguisse por inteiro, como pares que não considerassem seus escritos e teorias como algo fora do normal, para que pudesse trazer seu estado humano de volta ao seu corpo, a sua mente. Quatro anos “perdidos”, e MJ encontrou relato de um grupo cambojano, na internet, na mídia que tanto o incomodava, que praticava um tipo de liberdade limitada que postava a igualdade absoluta dos semelhantes em detrimento de sua própria existência, de seu corpo, não passando a forma de pensar como absoluta, mas sim a carne, a naturalidade da vida animalesca como o principio de paridade. MJ não acreditava friamente neste sentido, no entanto via neste intuito uma forma de compartilhar suas buscas, de poder atingir um novo principio que há tempos era-lhe negado: ser novamente humano. MJ partiu, cego, surdo e mudo, para o Camboja. Sua nova revolução era uma busca que não poderia ser apenas a mesma, aquela que o conduzira para um patamar de gênio, de superior, de o fora de contexto, ele desejava retornar, retroceder, se fosse o caso, a um estágio de visão colonialista primitiva. MJ queria ser doutrinado, queria ser um mártir de sua espécie, com o simples intuito de ajudar a todos os seus irmãos no sentido de não ser alguém que ele havia se tornado. Em quatro anos de doutrina cambojana e de desaparecimento total, MJ resolveu reaparecer com um novo livro, que duas semanas depois era chamado de a nova bíblia, mesmo sem ter sido lançado ou lido. MJ, se utilizando de sua posição de ídolo, decidiu que seu livro seria publicado por uma editora cambojana, da comunidade a qual agora fazia parte, e que teria uma edição absolutamente limitada ao número de lideres mundiais que faziam parte do conselho de segurança da ONU, e que seu lançamento deveria ser feito, única e exclusivamente, no quando da próxima reunião de tal conselho. Obviamente, apoiado por um consenso mundial, nenhum empecilho foi lhe criado, pois, apesar do desaparecimento, MJ era o grande pensador, o grande conselheiro dos conselheiros, o que havia gerado um sentido de comunhão entre os homens em seus escritos. MJ editou 16 livros, um para cada um dos cinco membros permanentes do conselho, representados pelos seus presidentes (USA, França, Reino Unido, Rússia e China), um para cada um dos dez membros rotativos do mesmo, também representados pelos governantes dos países em representação, e um para ele mesmo, que fazia questão de realizar a primeira leitura. O livro era daqueles que ficavam de pé, na vertical, e aparentava possuir o conhecimento dos conhecimentos, dada a personalidade histórica e única de MJ. No dia do lançamento, MJ fez questão de convidar, pessoalmente, os maiores membros da imprensa mundial, que deveriam ser representados não por seus jornalistas, mas pelos próprios proprietários dos veículos que, acreditando ser um grande privilégio, compareceram em massa, sem faltas, mesmo sabendo que não teriam o direito ao livro tão desejado. Reunidas cinqüenta e cinco pessoas, entre lideres mundiais e “donos do que se vê no mundo”, na sede da ONU, MJ Chegou e distribuiu os livros, afirmando que nenhum deveria ser aberto antes que o mesmo autorizasse e que todos deveriam seguir seus procedimentos se não quisessem gerar uma grande catástrofe. Os líderes, atentos aos dizeres de seu “adestrador/pensador”, seguiram os passos necessários, e MJ pediu-lhes que observassem apenas a capa e que depois, sutilmente, abrissem a primeira página sem ultrapassá-la de forma alguma. Na capa nada existia, apenas o branco, que, para os mais atentos e orientais/orientados, significava o luto da humanidade exposta em sua alma de pensador.  No prefácio, única e primeira página escrita, MJ afirmava que para concretizar sua humanidade todos os homens, inclusive ele, deveriam descobrir o grande segredo, que só poderia ser revelado pela própria curiosidade de todos os leitores, e que este segredo mudaria, ao menos em principio, todas as suas vidas pessoais e, quem sabe, posteriormente, a vida de todo o mundo. Ainda, ele afirmava que esta mudança era de escolha, e para realizar esta escolha todos deveriam mudar de página, mudança esta, que como nos grandes livros, que são optativos na relação de ler ou não ler a próxima página, deveriam ter direção própria.  Como em uma decisão do conselho de segurança, MJ sugeriu uma votação que promovesse a unanimidade ou não daquela abertura, reafirmando que a leitura da próxima página poderia mudar, realmente, a vida de todos, promovendo a grande mudança de suas humanidades. Intrigados pelo sentido de conhecer e deter o grande segredo da humanidade, os cinco membros permanentes, seguidos por todos os outros ali presentes, resolveram, sem votos contra, abrir a próxima página que revelaria o grande segredo filosófico humano. Decidida a questão, MJ pediu concentração para o adentrar da nova realidade e sugeriu que todos fizessem um contagem regressiva do dez ao zero, como nos lançamentos de foguetes da NASA, abrindo, simultaneamente, a segunda página, todos aos mesmo tempo. Ao chegar ao zero, ouviu-se uma grande explosão. A página dois do livro branco do luto de MJ era um dispositivo de bomba que vitimou todos os grandes líderes mundiais na busca de uma nova trajetória de vida para a humanidade. MJ deixou escrito no Camboja, e para ser distribuído por todos os espaços possíveis, reproduzindo, e não criando, a frase de seu grande ídolo igual Nietzsche: “o homem prefere ainda querer o nada antes que nada querer.” Ludibriados por aquele pensamento, os grandes lideres mundiais, dez horas depois, já acordados, perceberam que a segunda página do livro não passava de uma magia cambojana de encantamento, acompanhada de uma caixa de música que induzia os observadores a ter tal pensamento bombástico, seguido pelo sentimento de visão do céu, no qual absorviam a frase do filólogo europeu sendo distribuída por toda a terra. Depois do susto, todos viram MJ deitado ao chão, vestindo uma camisa, ele sim morto, com os dizeres nela escrito: “espero que meu fantástico martírio artístico sirva de visão para uma nova humanidade.”

Joaseiro.com





Um comentário que merece ser lido

25 06 2009

     Realmente dá gosto editar o Joaseiro.com. Mesmo quando o tempo nos falta e passamos alguns dias sem postar, eis que os comentaristas continuam as discussões, enriquecendo o conteúdo do blog e nos incentivando a continuarmos o trabalho. É muito bom ter esse retorno de vocês, leitores. Atualmente, uma boa discussão sobre cultura de massa e arte vem se travando no post “Programação da Expocrato 2009”, algo que vale a pena ser lido, pela qualidade dos questionamentos e argumentações expostas. Outro comentário fantástico que nos chamou a atenção foi o do [colunista] Franzé Matos, acerca do conto de Guilherme Patriota postado logo mais abaixo. Franzé sintetizou em poucas linhas grandes reflexões sobre a individualidade humana, os valores nos dias de hoje e banalização de vários aspectos da vida do homem moderno. Reflexões assim merecem ser lidas por todos e, por isso mesmo, reproduzimos o comentário aqui na página principal.

     Aproveitamos a oportunidade em que falamos diretamente aos leitores para agradecer ao Sr. José Gondim, nosso leitor de Fortaleza que nos enviou email elogioso. A ele, nosso forte abraço. E também agradecemos a Luciano Sá, Assessor de Imprensa do Centro Cultural do Banco do Nordeste, que ‘descobriu’ nosso site e agora manda diretamente para o nosso email a programação dos eventos do CCBN. Comprometemo-nos em continuar a divulgar a valorosa a agenda do CCBN, especialmente a do Cariri.

Joaseiro.com

     “O sentimento de angústia no mundo de I é também o meu. Não entendo porque uma pessoa se torna “massa”. Uma pessoa é todo um mundo, mas agimos hoje de maneiras tão semelhantes que tornamo-nos “massa”. 6 bilhões e não mais existem vanguardas? Artistas espetaculares? Grande filósofos? Que contradição é essa?

    Acredito justamente no oposto: há muito mais arte, muito mais literatura, muito mais diversidade que em qualquer época. Mas pela quantidade de novo que a todo segundo surge, torna-se tudo banal demais? E por quê?

     Quantificamos, categorizamos, distinguimos, criamos padrões. É verdade, facilita mais a vida e a “mudança que cada ser pode dar para seu habitat”, mas aonde isto está nos levando? Literatura é banal, filosofia banal, arte é banal, saber a cada segundo o que ocorre em todo o mundo é banal, destruir a natureza de todo o planeta é banal, quase duas dezenas de países com bomba atômica é banal, a morte é banal, árvore banal, animal banal, tudo banal? Para que viver assim? Se banal tournou-se a vida? Que grande caminho para onde fomos levados.

     O novo é a constância, não mais a ruptura. O “sistema” de hoje vive e se mantém da produção e consumo deste novo. E ele é, antes de virar ruptura, trazido para o seio do sistema como produto que o próprio sistema possibilitou. Nosso pensamento vive sobre uma única lógica. É preciso reverter a própria lógica. Pois a lógica influencia todos nossos pensamentos e ações. E mudarmos os pensamentos e ações e não refundarmos a lógica de onde eles surgem, de que adianta? É muito maior e mais complexo. Vivemos no mundo que é um grão de areia e esquecemos de todo o resto. Em nosso entorno há quatrilhões e quatrilhões de quilômetros pelo universo. Olhando para a mesa a sua frente ela fervilha num movimento incessável e achamos que ela está parada.

    Radicalidade realmente. Precisamos de um grande gole, urgente.”

 Franzé Matos





Conto da Semana

21 06 2009

Recife, 19 de junho de 2009.

“A história de toda a sociedade que existiu até agora é a história da  luta de classes”

(Marx & Engels)

Sua Própria classe o Absorverá

Por Guilherme Patriota

     Por vezes, nos sentimos tão sós que deixamos de acreditar que qualquer coisa venha a acontecer de forma real fora de nosso próprio organismo. I era um filósofo, um cara que realmente se preocupava com interrogar os sentidos de sua vida e do universo, sem necessariamente ter que se aconselhar com Sócrates ou Platão, inclusive se portando sempre no movimento contrário, acreditando friamente na nunca e não existência orgânica destes indivíduos. I trabalhava numa repartição pública, mas chegava cotidianamente a sua casa, no pós labor, com a mesma questão na cabeça: “para quê serve o trabalho?” Sua resposta quase sempre apontava para a contribuição de mudança que cada ser pode dar para seu habitat, mas a vagarosa porção encantadora de sua lida diária destruía sua ilusão e retornava ao mesmo questionamento. I sonhava em ser filósofo mesmo, no entanto sua carteirinha do sindicato dos filósofos nacionais não podia ser retirada, pois precisava do diploma e, ainda pior, precisava participar da sociedade como um bom trabalhador que merecesse a justa recompensa do dinheiro para se solidarizar com sua mulher e filhos no sustentar do lar contemporâneo. A vida de I era uma luta de classes celulares, que buscavam se encaixar dentro de seus pensamentos e dentro das logísticas humanas de sobrevivência que teimam por colocar homem frente a homem em embates ideológicos que remetem, erroneamente, as suas próprias formas de vida. I se batia e se debatia com o próprio I, com suas próprias fantasias, que só eram utópicas por um medo filosófico de estar só, mas que o conduzia a mais profunda das solidões: a solidão interna. Depois de trinta e quatro anos de serviço público, já com seus filhos formados na filosofia advinda das academias e com seus devidos e justos sentidos financeiros resolvidos, I resolveu abandonar o trabalho sem dar satisfação alguma ao Estado, partindo para a grande empreitada de sua vida: não fazer nada que exercitasse seus músculos, guardando toda sua energia para delinear um método de vivência que conduzisse seu organismo a uma reação inumana que desencadeasse uma interrogação constante na mente daqueles que o observassem. I ficou dentro de casa por 380 dias, e a pressão do mundo batia a sua porta todas as horas. Eram contas, amigos, o estado, a polícia, os vizinhos, e I só conseguia fazer o mesmo questionamento: “Para quê serve o trabalho?” Incomodado pelo incômodo de todos que visitavam seu refúgio para lhe pedir satisfação quanto as suas relações sociais, I resolveu partir sem rumo, partir para um lugar que não fosse lugar e que não fosse fixo, mantendo-o, assim, sempre estranho por onde passasse. Para satisfazer a vontade de seu futuro, I resolveu criar uma caixa postal, que iria ser aberta quando de seu falecimento, para que pudesse enviar textos diários relatando o que ele tinha escrito em cada um daqueles dias que sobraram de seu viver, que seriam lidos como a experiência de um filósofo em busca. Em sete anos de peregrinação, I percorreu todos os continentes, visitando indústrias, sindicatos, ruas, praças, passeatas, comícios, florestas, rios, mares, bares, escolas e tudo mais, sempre anônimo e sempre tentando encontrar respostas para possíveis perguntas que pudessem habitar em sua memória, de acordo com a sensibilidade depositada nas variáveis circunstâncias percorridas. I foi encontrado por seus filhos, pela manhã, na porta de casa, deitado, vestido com a mesma roupa com que tinha saída há sete anos, com as duas mãos sobre o peito, numa delas a chave da caixa postal e na outra uma folha de papel rabiscada. I faleceu com um enorme sorriso, fazendo com que seus filhos não sofressem e compreendessem que sua busca havia terminado/reiniciado. Abriram o papel que estava em sua mão e viram que seu pai deixava, por escrito, os meios legais para que os filhos tivessem acesso à caixa postal que estava situada no correio local. No mesmo instante, antes mesmo de cremar o corpo do pai, os jovens se encaminharam para o correio e retiram todas as cartas. Das duas mil quinhentas e cinqüenta e seis cartas encontradas naquele local, duas mil quinhentas e cinqüenta e cinco registravam o mesmo texto: “Para quê serve o trabalho?” No entanto, na última carta, I expunha o seguinte texto: “O homem percorre toda a sua vida acreditando estar buscando algo que é seu, e por vezes percebe que sua grande busca foi cega, todavia não deve parar de buscar. Desde que me vi como homem, como parte deste grande ser que nos absorve, tornei-me uma criatura intrigada com um único questionamento: Para quê serve o trabalho? Mas não achei resposta; encontrei respostas volúveis ao meu perceber, ao meu raciocinar. Mesmo assim mantive minha busca, que não gerou nenhum tipo de arrependimento. Quanto ao trabalho, relaxa! Sua própria classe o absorverá.”

Joaseiro.com





Conto da Semana

14 06 2009

Recife, 12 de junho de 2009.

Noites de um solitário e a gata “MI MI”

Por Guilherme Patriota

     Enquanto todos dormiam G apenas cochilava para perceber que realmente ninguém mais estava acordado. A perturbação daquela voz de gato que miava, estampava na cara de G que tudo era em vão, os tempos haviam de acabar e ele só podia apenas esperar. Caminhava do quarto ao banheiro há mais de uma semana e ninguém desconfiava de nada, ora, pois bem, ninguém o via, ninguém o enxergava. G era um poço; um poço sem água, com um balde pendurado por uma corda, que balançava, se assanhava por suas paredes pedindo sempre o líquido que ele não tinha. G já não comia, a ingestão de alimentos significava mais um dia de tortura, um dia sem respostas para tantas perguntas, um dia que se multiplicaria por mais dois ou três, os quais nada viriam, nada refletiriam, nada mudariam do que já estava mudado. Por vários momentos pensou em parar, acreditou que poderia voar, ao invés de caminhar do quarto ao banheiro. Tomou um trago, bem forte, imperceptível a todos aqueles que ele acreditava beberem ao seu lado, mas incômodo a digestão. No descer da vodka, G sentiu todo seu organismo em transformação, e deparou-se com o estômago, deformado, cortado, estupidamente ácido no tocar do destilado. G voltou correndo, sugado como uma fita rebobinada que mostra a imagem de trás para frente e com tripla velocidade. Sentiu um cheiro de fumaça; acendeu um cigarro e voltou a caminhar em direção ao suposto banheiro. Parou no corredor, cuspiu toda a parede, e depois, com calma, pediu ao garçom um saquê. Obviamente não foi atendido, e continuou sua caminhada até atingir o vaso sanitário. G estava esquelético e não teve forças para segurar seus óculos que caíram sanitário adentro durante a descarga. Tomou o caminho de volta, outra vez o quarto, o útero, a mãe. Sentiu-se criança, amado, farto de sabores simbólicos que enchem qualquer poço de água, de vinho, de vodka. G já não mais agüentava esperar, resolveu agir, tomar uma decisão que mudasse sua situação, seu dilema. Resolveu não ir ao banheiro, mas esperar que a vontade de urinar fosse certeira e molhasse suas calças para novamente se sentir enxaguado, acariciado pela urina amarelada que se acumulava em seu organismo e que deveras seria expulsa. A urina não veio, G nem mais lembrava. A porta aparentemente entreaberta sugeria a G que alguém estava à espreita, mas resolveu agir sem ação, resolveu esperar para ver se o fim era realmente o início. A porta bateu, G não percebeu e novamente a porta se abriu. G enxergou uma luz ao longe, bem no fundo do corredor que dava para o banheiro, e sua atitude foi de visão, pensou nos óculos, pegou com as duas mãos e pôs o mesmo na face, sobre o nariz, subindo com o dedo indicador, lentamente, a peça inteira até alcançar as lentes aos olhos, então já era tarde, a porta novamente estava fechada. G retirou a peça de seus olhos e forçou a fechadura, abrindo a porta e o zíper ao mesmo tempo. Viu uma torneira derramando água, uma garrafa de coca-cola enchendo um copo, uma fonte das de praça jorrando, uma mamadeira pingando leite e a chuva na janela que a toalha molhava. Não compreendia tanto líquido, mas aquela sensação ainda mais o incomodava, o deixava perplexo, encabulado e direcionado a voltar ao quarto. No fechar da porta viu bananeiras que escoriam pingos da chuva, pingos que molhavam seu rosto, que escorriam por sua barriga, que desciam a sua virilha, que esquentavam sua perna. G sentiu um toque mais forte no ombro, e mais forte foi a sensação de quentura em suas pernas, era como se a realidade do ir vir ao banheiro, que aparentava mais de uma semana, tivesse perdido a noção de tempo. G, muito incomodado, se sentiu acordado por sua mãe, que reclamava: “- Menino! Sempre que você brinca com fogo a noite, você acaba acordando mijado. E o trabalho todo depois fica comigo!” G agoniou-se; penetrou no estágio menos macio do divagar e acabou caindo da cama. Agora, realmente, ouviu “Mi Mi” miando, no chão, ao lado da garrafa de vodka, onde ele havia caído, e teve a nítida sensação de estar acordado: Será?!

Joaseiro.com





Conto da Semana

7 06 2009

Recife, 06 de junho de 2009.

 O destino por vezes é uma lâmina

Por Guilherme Patriota

     Quando pequeno, E adorava ver seu pai fazer a barba, fosse em casa, fosse no barbearia do poeta ZC. E era fissurado em lâminas, principalmente nas lâminas que não cortavam, não ensangüentavam a pele humana, mas que faziam o seu trabalho sempre pelas mão humanas. E sonhava com a lâmina cortando sua própria barba, cortando as lavouras das terras do Mocambo, sempre imaginando que sua vida seria guiada pelas lâminas. Quando adolescente, seguia a rigor sua fissura, começando a trabalhar como cortador de cana, utilizando sua lâmina afiada para separar a planta da terra e a palha da cana. Logo notou que seu destino não era essa lâmina, que a noção laminada a se estender por sua mente não era nem de longe aquela agora praticada. E resolveu sair dos canaviais e voltou para a casa dos pais, dando reinício aos trabalhos com a lâmina da foice no cortar o capim que alimentava o gado de seu pai. Certa tarde, no sítio Mocambo, E voltava para casa mais cedo e ouvia, no caminho, vários gritos saindo de dentro daquela única casa existente nas redondezas, a dele mesmo. E apressou o passo, querendo logo descobrir que agonia sonora cortava seus ouvidos. Chegando à casa, E encontrou sua mãe, deitada, ensangüentada, com uma lâmina na mão – uma foice -, morta; a frente seu pai, com outra lâmina – outra foice -, também ensangüentado, morto. E perdeu os sentidos, e só acordou dois dias depois, na mesma sala, com os corpos meio decompostos, cheirando além do mal. E não se preocupou com nada, saiu de casa com o que estava no corpo e desapareceu daquela cercania. Ninguém sabia o que tinha acontecido, apenas encontraram os corpos decompostos três semanas mais tarde, e nenhum sinal de E, que havia sumido no mundo. Dez anos depois, na pequena Itapetim, que nos dias de sua tradicional feira – quarta-feira – era ponto de encontro daqueles os quais todos chamavam de loucos na região, que se reuniam para coletar “impostos” através das mais lúdicas e mentirosas fábulas de sofrimento, que entorpeciam a mente de qualquer cristão, forçando-os, mentalmente, a fazerem doações para a sobrevivência daqueles auto-intitulados “cobradores de impostos”, apareceu um novo pedinte/cobrador com características peculiares que chamou a atenção de todos. Ele tinha pernas grandes e andava a contar seus passos, sempre bem largos, perambulando por toda cidade, falando palavras estranhas e, muitas vezes, incompreensíveis até para os mais próximos. O pedinte era estranho, pois seu olhar era tão assustador que fazia todos naquela feira, sem questionar e sem saber o que ele falava, darem valor ao seu pedido, entregando o possível em dinheiro, comida ou sacolas plásticas – que, sempre ao ver nas mãos dos outros, apontava, como que pedindo, e, quando recebido, colocava logo dentro de seus bolsos já estufados de sacolas. Diferentemente de outros semelhantes, que sempre apareciam no dia da feira e logo depois retornavam para suas cidades de origem, o “Passos Largos”, como foi chamado a princípio, ficou na cidade durante a noite e resolveu repousar no coreto da praça superior daquela cidade, bem em frente da igreja, pois lá ele tinha árvores e tinha como se proteger de qualquer situação vinda dos céus (como chuva, ou sol no amanhecer). Itapetim sempre foi uma cidade de curiosos, e logo no amanhecer, quando aquela criatura estranha já caminhava a contar seus passos pela cidade, mendigando um justo café da manhã, seu JR, notou alguma semelhança entre aquele sujeito e seu compadre assassinado anos atrás. Seu JR não mediu esforços, começou a seguir “Passos Largos” tentando alcançá-lo para indagá-lo sobre suas origens e sobre o que ele vinha fazer por ali. Quando o alcançou, seu JR estava apavoradamente cansado, mas ainda disposto a responder a seus questionamentos. Parou na frente de “Passos Largos” e perguntou de onde ele vinha. A resposta foi rápida, no entanto incompreensível, fazendo com que seu JR refizesse o questionamento e pedisse para que a resposta fosse lenta e pausada. Tal qual seu JR pediu foi atendido, no entanto o senhor notou que algo posto na boca de “Passos Largos” impedia o jovem de responder as coisas com clareza. Foi então que ele pediu ao pedinte/cobrador que retirasse aqueles objetos de sua boca para que ele pudesse ouvir claramente as respostas às perguntas que ele estava a fazer. “Passos Largos” retirou quatorze lâminas de barbear da boca, que estavam separadas ao meio, ficando quatorze metades de cada lado. Seu JR, impressionado, perguntou o nome ao jovem, e ele respondeu, agora de forma clara, que se chamava E. Seu JR, reconhecendo o afilhado, tirou a limpo logo toda a história, refazendo assim um novo sentido de bem querer para com seu ente desaparecido, mas ainda querido, e novamente tornou a questioná-lo sobre seu desaparecimento, por onde ele andava e terminou por perguntar o que ele tinha feito de sua própria vida, recebendo de E a seguinte resposta: “– Desde pequeno eu já sabia que minha vida seria guiada pelas lâminas, pois diariamente sonhava com elas, com seus cortes, com seu barbear. Por toda a minha existência juvenil procurei trabalhar com elas, acreditando que descobrindo alguma técnica de manipulação das lâminas eu encontraria a própria resposta de meu destino. No entanto esta minha paixão, este meu guia, entregou meus pais mortos, e sem respostas, e me fez perdido no tempo e no espaço por mais de nove anos. Quando acordei, novamente, para a vida, percebi que existiam várias lâminas dentro de minha boca, parecendo fazer parte de meu corpo, foi então que resolvi aceitar esta condição, pois meu destino sempre foi uma lâmina.”

Joaseiro.com