Assassino… Assassina!
Desde o final de março não se fala em outra coisa… e o brutal assassinato da garota Isabela Nardoni realmente merece toda a repulsa da sociedade. No entanto, todos os dias observamos determinados comportamentos da população em relação a esse homicídio que são claramente induzidos não apenas repugnância que o caso merece, mas pela cobertura distorcida (em quantidade e em qualidade) da mídia.
Após o acontecimento, a maior parte da imprensa não se limitou a informar o andamento das investigações, cobrir o trabalho da polícia; tampouco vemos os meios de comunicação exortarem a sociedade a refletir a respeito da banalização da violência. Em vez disso, muitos órgãos extrapolam os limites da ética jornalística e confundem seu papel: passam a ser também investigadores do caso. Assim, todos os dias anuncia-se uma nova entrevista com “uma testemunha-chave”, seja ela o vizinho de baixo do apartamento, alguém que mora no prédio dos fundos, o porteiro do edifício vizinho, a amiga da irmã do pai, o cachorro que passava na calçada na hora do assassinato… Todos esses “furos” que são anunciados como matérias “exclusivas!!!” acabam por gerar uma competição desenfreada por “novas informações”, sejam elas novas mesmo, ou apenas os mesmos dados repetidos a todo momento ou, pior ainda, novas suposições do apresentador que se acha mestre em investigação criminal e já possui toda a trama solucionada.
E não pára por aí: cinegrafistas fazem plantão para flashes ao vivo da delegacia, do IML, da cena do crime, da casa dos avós, da escola de Isabela… fotógrafos se acotovelam pelo melhor ângulo, pela foto exclusiva… repórteres fazem de tudo por uma nova declaração de seja-lá-quem-for. Nesse ritmo frenético, o caso não sai de cena. Canais de televisão passam horas repetindo o que todos já estão cansados de saber. Do programa de culinária e “variedades” aos telejornais propriamente ditos, os apresentadores apenas de revezam no papel de manter o caso em evidência. Pessoas param suas vidas para acompanhar a trama. Uma trama, isso mesmo. A cada novo telejornal, um novo capítulo da novela criada. A cada flashe, um novo desenrolar, uma nova expectativa é dissipada e muitas outras são geradas, para que o espectador-expectador continue ligado na telinha. “Não saia daí, já já mais informações exclusivas sobre o caso Isabela”. Realidade e ficção se confundem nesse jogo perigoso.

Pessoas foram para a porta da delegacia ou para qualquer lugar para onde o casal Nardoni estivesse para gritar “Assassino! Assassina!”, antes de qualquer informação oficial. Só algum tempo depois, a polícia indiciou o casal, após as dezenas de depoimentos, laudos técnicos da perícia e demais elementos da investigação mostrarem que, ao que parece, o pai a madrasta são realmente os autores do horrível crime. Mas antes disso, o perigoso pré-julgamento estava feito. Populares aos montes com seus celulares-que-batem-foto e cartazes de protesto aparecem nas reportagens, seja dando suas “opiniões” (nada mais do que a repetição do que a TV diz diariamente), seja dando tchauzinhos por trás dos repórteres.
Tal papel a que a imprensa está se prestando, faz lembrar a época da censura da ditadura militar, pois existem dois tipos de censura: a da pouca informação e a da informação abundante. Na primeira, a de ontem, os cidadãos permanecem desinformados simplesmente por não terem acesso ao que se passa. Na segunda, a de hoje, permanecemos ignorantes devido ao excesso de notícias que nos atiram à cara a todo momento. Permanecemos grudados na novela da realidade, esperando o próximo capítulo, e não temos como pensar, refletir sobre o que se passa. Dormimos e acordamos recebendo passivamente tudo que jogam na nossa cabeça. E nem sequer paramos pra pensar de onde vem essa violência desenfreada e quem ganha com sua espetacularização.
Por Sávio Samuel
(Publicado também no Jotamatias.com)
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